Bob Metcalfe é o inventor da Ethernet, o padrão utilizado por 5 em cada 5 redes locais de computador hoje em dia. Ele entende de rede. Ainda assim, em 1996, previu que com tanta gente entrando na internet ela entraria em colapso naquele ano. Bem – não aconteceu.

Pois na quinta-feira passada, quem estava ligado à rede pela Telefônica sentiu como seria a vida sem internet.

É um cenário que vem sendo imaginado há anos, repetidamente. Em maio de 2001, a Cisco, que fabrica a maioria dos roteadores que ligam os nós da rede uns aos outros, avisou ao mundo que havia descoberto uma fragilidade em suas máquinas. Se bem exploradas por um hacker derrubariam a internet. Ela continuou de pé.

Em 2004, um grupo de sábios vindos de toda parte se reuniram em Los Angeles para uma grande conferência de “prevenção do colapso da internet”. Sábios mesmo: professores de Harvard, do MIT, do governos dos EUA, gente entre os criadores da internet. Estavam realmente preocupados. Ela continua aí.

Previu-se que a transmissão ao vivo via web da final da Copa do Mundo, em 2006, derrubaria a internet.
No início de 2008, quando a BBC britânica anunciou que poria sua programação de TV online, novamente houve quem sugerisse que a internet cairia. Uma previsão do tipo existe para 2010. É da AT&T, uma das maiores empresas de telecomunicações do mundo. Seus técnicos acreditam que cada casa, nos EUA, moverá tráfego digital equivalente ao que circula hoje em toda a internet. Como acreditam que a infra-estrutura da rede não agüenta o tranco, pois é, em 2010 deixaremos de ter a internet. Claro como água.

Paranóicos?

A internet caiu uma única vez. Foi em 1988. (Isso mesmo: há 20 anos.) Um programa de computador com um bug, erro no código, espalhou-se sobrecarregando todos os poucos computadores ligados à rede. Era o Morris Worm. Desde então, nunca mais.

Mas houve momentos delicados.

Em 1997, alguém enviou uma tabela de dados corrompida para os DNSs, servidores que regulam os endereços da rede. Não é que a internet tenha saído do ar. Ela estava lá. Mas não reconhecia os endereços escritos como www.estadao.com.br; só reconhecia os endereços numéricos (que ninguém conhece de cor). Era como se a rede tivesse ficado invisível. Inacessível. Em maio de 2000, um vírus espalhado por e-mail chamado ILoveYou se distribuiu de caixa postal em caixa postal com tanta violência que deixou a conexão lenta que só. Como se arrastou a internet, naquele dia.

E houve incidentes sérios que ninguém percebeu. Em outubro de 2002, os mesmos servidores que foram corrompidos em 97 sofreram um ataque de hackers.
Dos 13, sete arriaram. Mas enquanto os técnicos arrancavam seus cabelos para resolver o problema, nós, cá do outro lado do monitor, navegávamos sem saber que a rede quase caiu. Fica sempre no quase.

Em sua maioria, todos os incidentes que perturbam o pleno funcionamento da internet são localizados, como o que afetou a Telefônica. Uma parte dos usuários perde acesso mas o resto continua no ar. Ainda assim, não devemos ignorar o fato de que gente muito boa e e entendida do assunto costuma dizer que, embora ela permaneça online lépida e faceira dia após dia, não quer dizer que estará aí amanhã. A internet tem lá suas fragilidades.

Vivemos um tempo em que muitos defendem que nossos programas, nossos arquivos, nossas fotografias, textos, e-mails – nossas vidas – tomem o rumo da nuvem. Da rede. É uma maravilha: aquela planilha estará acessível de qualquer parte, desde que tenhamos acesso à internet via Wi-Fi, banda larga, celular 3G, o que for. Para que manter uma cópia no disco rígido? Quem dependeu da Telefônica quando houve o colapso em São Paulo se perguntou, será que não devia ter deixado tudo no HD?!

POR PEDRO DORIA - ESTADÃO